
Ivanildo Martins Gonçalves
Não existe gente feia
Estávamos no “Bar do Timbuca”, à tardezinha, eu, o Reginaldo e o Carlos. Para completar o grupo de amigos faltava o Paulo, que nesse dia estava muito ocupado com assuntos de família. Não era nada sério, na verdade ele estava numa felicidade sem par, pois havia nascido seu primeiro neto, o pequeno Douglas.
Ele ligou para todo mundo, principalmente para nós, dizendo que se viesse ao bar seria mais tarde, e então beberíamos o “xixi do nenê” - era assim que normalmente falávamos quando nos encontrávamos para brindar um nascimento. No entanto, não deu certeza se compareceria. Uma pena, pois o Paulo sempre nos divertia com suas “ratas”.
Eu, naquela tarde em particular, também não queria ir ao bar, pois tinha um compromisso à noite com a Cecília, porém, para alegrar meus amigos, dei uma passadinha por lá. Saindo do bar por volta das seis horas da noite daria tempo suficiente para eu tomar um banho e ir ao encontro da minha amada. Afinal, o Paulo podia não aparecer naquela tarde, frustrando os dois amigos, e não custava nada eu tomar uma cervejinha com eles.
Reginaldo, o mais ligado ao Paulo foi o primeiro a se lamentar da ausência do amigo:
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Pôxa! Se o Paulo não vier não vai ficar legal.
Calma aí, Reginaldo. Ele não disse que viria, mas também não disse que não viria. Pode ser que chegue mais tarde.
Eu permaneci calado, ouvindo e observando os dois.
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Ora Carlos... Se liga. Ele tá todo bobo com esse “bacuri” e não vai se descolar da criança tão cedo.
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A alegria dele tem fundamento, afinal é o seu primeiro neto. Um garoto e tanto! Além do mais, o menino se parece muito com o Álvaro (filho do Paulo) e provavelmente vai puxar o lado da família do pai.
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Deixa de ser tonto, Carlos. Bebês não se parecem com ninguém, sempre com aquelas carinhas disformes e cheios de dobras por todo o corpo. E por falar nisso, você já viu o menino?
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Claro. Assim que ele me ligou fui ao hospital, pois eu estava já de saída do consultório. O menino nasceu de manhãzinha e ele me avisou pouco antes do almoço.
Nesse ponto da conversa eu tive de participar.
Os dois amigos fizeram uma expressão mista de admiração e curiosidade.
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Você também já viu o bebê? – Perguntou Alberto
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Não. Ainda não puder ir ver o garoto.
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Desculpe-me, mas como pode afirmar que o filho “só pode ser dele”, se ainda não viu o nenê?
Respondi prontamente ao Reginaldo:
No dia seguinte, acordei tarde, quase na hora do almoço. Havia levado a Cecília pra minha casa e a noitada foi bastante desgastante pra mim. Acho que estou mesmo ficando velho! Tomei um banho, improvisei um almoço rápido e como era de costume, após o almoço nada melhor que uma breve sesta pra relaxar e iniciar a digestão. Deitado em minha cama, abri meu Carlos Drummond e mal comecei a ler me perdi nas recordações da noite anterior. Que noite! Recordava o corpo jovem e perfeito da Cecília estirado sobre o meu, já torturado e marcado pelos meus cinqüenta anos bem vividos. E bota bem vividos nisso! Foram tantos beijos, tantos “amassos” em indefiníveis prazeres... Não tem mesmo jeito. É como dizem, cavalo velho gosta de capim novo. E abençoado seja o viagra! A campainha tocou interrompendo as minhas doces e recentes recordações, quem seria? Tinha que ser... Minha filha. E como sempre, me pediria alguma coisa ou algum favor, e eu certamente não teria como recusar. E não deu outra...
Na tarde do mesmo dia ela partiria para o Rio e pediu que eu ficasse com a Sofia (minha netinha) que não poderia ir a tiracolo.
Ah! Se ela soubesse... Mas era sempre bom ter a companhia da minha netinha querida. Embora eu tivesse de cancelar certos compromissos...
O diálogo se prolongou dentro do trivial e minha filha não demorou a ir embora, afinal ainda ia preparar as malas e viajar naquela tarde. Voltei para o quarto, com a minha netinha, deitei-me e abri novamente meu Carlos Drummond...
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Vovô, tem um copo jogado aqui no chão – Hum! Cecília era terrível. Sempre esquecia algo pela casa...
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Sim querida. O vovô estava cansado e esqueceu-se de levar o copo para a cozinha. Deixe-o ai no canto que depois eu levo.
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Vovô, o sinhô nunca gostô desse negoço nojento!
Oh, céus! Cecília bebera várias doses de vodca e eu, normalmente, bebo apenas cerveja.
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O vovô ontem estava passando mal e tomou essa bebida como remédio. Foi somente um pouquinho...
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Ah... tá, vovô. - Hum... parecia que eu tinha me saído bem!
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Vovô! O senhor agora tá usando batom???
Bem, sem mais comentários. Criança não é fácil!
Dois dias depois, já sem a companhia da minha adorada netinha, estava eu de volta ao bar do Timbuca. Já era noitinha, chovia muito e eu detesto dirigir à noite, ainda mais com chuva, mas havia combinado de me encontrar com meus três amigos para irmos à Paradise – uma pequena boate da cidade – nos divertir um pouco e beber o “xixi do nenê” já atrasado. Não íamos à Paradise havia muito tempo e, segundo diziam, muitas coisas havia mudado por lá. Do meu sítio até o bar, que fica ainda fora da cidade, dava uns vinte e cinco minutos de agonia na estrada, que graças a Deus já não era mais de “chão”. Mesmo chegando meia hora atrasado, apenas Paulo e o seu filho Álvaro estavam no bar. Os outros dois amigos estavam ainda mais atrasados do que eu.
Paulo costumava cumprir horário e era sempre o primeiro a chegar. Os dois estavam muito bem acompanhados de duas belas amigas e uma delas eu já conhecia muito bem. Luciana trabalhava, há algum tempo, naquele bar, servindo as nossas cervejas e tivemos um caso de amor, que durou pouco, devido ao seu intenso ciúme, mas a outra, uma bela morena alta, eu desconhecia.
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Como estão as coisas Paulo? Aproximei-me cumprimentando primeiro os dois amigos e, em seguida, beijei Luciana amigavelmente, já de “olho grande” na sua amiga.
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Não vão me apresentar a moça? Avancei pra beijar o rosto da morena e fui impedido pela Luciana que esticou o braço entre eu e a sua amiga.
Que ela era ciumenta eu bem o sabia, mas tanto tempo depois de terminado o nosso relacionamento... Não fazia sentido.
Luciana ficou meio sem graça e me dirigi então para a morena.
Depois de ouvir aquela frase, numa voz mais grossa que a minha, fiquei pasmo! Um homem... Como eu não percebi antes? Que loucura!
Bem... Os outros dois amigos chegaram em menos de meia hora e o resto da noite passou, como de costume, com muita conversa fiada, regada à cerveja, muitas gargalhadas alcoolizadas, porém sem nada de relevante para comentar.
E sem nada de relevante passaram-se dois meses o Alberto me telefonou dizendo que havia estourado uma “bomba”! Fiquei curioso para saber do que se tratava, mas disse que só nos contaria no bar do Timbuca. O curioso é que o Paulo não estaria presente e não poderia saber desse nosso encontro, principalmente da sua razão.
À tardinha, conforme o combinado, encontrei o Alberto no bar, em nossa mesa preferida, e antes que eu “baixasse” a segunda cerveja, o trio já estava composto. Embora eu estivesse curioso não tentei, logo de início, tocar no assunto do dia. Na verdade não me sentia bem pelo fato de o Paulo não poder estar presente, isso me causava uma impressão estranha, mas assim que o Reginaldo chegou já foi logo perguntando:
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E então Alberto? Qual é a “bomba”?
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Se acalme amigo, dá uma molhada no bico primeiro.
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Conta logo cara, ou vai continuar matando a gente de curiosidade?
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É o Álvaro, gente...
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O que tem o Álvaro? Tá doente? Perguntei impaciente.
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Está se separando da Aninha. E adivinhem por quê?
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Não vai me dizer que... – O Reginaldo teve receio de completar a frase e errar na conclusão.
Eu, logo de início, deduzi que o Álvaro tivesse arrumado outra, logicamente mais bonita, ou melhor, menos feia que a feiosa da Aninha. Nesse momento, preferi sorver minha tulipa sem moderação e esperei pela conclusão do Alberto.
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Sim. Exatamente! – Exclamou o Alberto como se tivéssemos entendido tudo.
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Exatamente o quê, Alberto? – Reginaldo, impaciente, socou a mesa com violência fazendo com que Alberto detonasse de uma vez.
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Descobriu que o filho não é dele.
Inacreditável!!! Engasguei terrivelmente com a cerveja, que me entrou pelo “goto”, me saiu pelas narinas e comecei a tossir violentamente. Levei várias bordoadas nas costas e com muito custo me recuperei do engasgo.
Pois é...
Como dizem por aí: Não existe gente feia...
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