Cosme Custódio
O Pescador
Outra manhã
Outro dia
O mesmo horizonte
O mesmo mar
O mesmo céu secreto
O mesmo barco tosco
Deslizando no azul adentro
Perseguindo cardumes fugidios
A mesma cantilena
A mesma voz rouca
As mesmas rugas
Acentuadas pelo sol e salitre
Denunciando a idade
O mesmo temor
A mesma incerteza
O mesmo amor
A mesma esperança
Cora, Coralina
Aninha doceira
Dos becos
De Goiás velho
Nasceu poeta
A menina Cora
A mulher Coralina
Corou reprimendas
Com um nome que rima
Coração vermelho
De riqueza lírica
E experiência humana
Sensibilidade especial
De uma fonte de vida
Sono
Madrugada
A brisa murmura fria
As folhas farfalham,
Os trêmulos raios
Mesmo assim fulgentes
Avançam peremptórios
E luxuriosos vigiam
Sopitando corpo moreno
De mulher
Inundando-o de luz
Através da vidraça vã
E sob fragrância de incenso
E som de flauta pã
Na serenidade mais íntima
Das sombras do bosque
Encontram calidez prazerosa
Dormindo tranqüilos
Esvair-se
O trem parte
A saudade acena
Fica a estação
A praça passa
A igreja
Outro trem
O mar passa
O arco-íris fica
Pintando o céu
Vem a noite
A vida convém
Noutro dia
Em carne viva
Passa a montanha
A curva
O abismo
A ponte também
Passa o passado
O presente
A barreira
O desafio
A natureza
O futuro vem
Só não passa
A lembrança
O sonho
O amor
Que se quer bem
Fragilidade
Somos todos quixotescos
De atitudes fortuitas
E pensamentos grotescos
Cavalgando em rocinantes
Pangarés
Trôpegos, vacilantes
Degladiamos
Contra moinhos sem ventos
Imóveis, inúteis
Lançando nossas lanças
Toscas, tortas
Cegas ao vazio
Somos todos sanchos
De panças vazias
Mentes ocas
De atitudes impotentes
Vítimas de nós mesmos
Manhã Poética
Manhã de sol primaveril
Brunindo o dia
De aves cantantes
Que enovelam seus ninhos
Nos galhos de aléias verdejantes
Nuvens purpereadas
Encimando cantos concentos
De aves adejantes
Esparzidas em harmonia
Por ventos trêmulos refrescantes
Transborda na manhã
Deixando-a adusta, o sol
E cada ser vivo, bruxuleante
A alma afônica de contente
Com a obra do divino fecundante
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