Cosme Custódio da Silva – Salvador BA
Stendhal
Em 1817, o escritor francês Marie-Henri Beyle, mais conhecido como Stendhal, fez um grand tur pela península italiana,relatando em seu diário os principais momentos da viagem, publicados mais tarde no livro Napoli e Firenze: um viaggio da Milano a Reggio.
Depois de ter admirado os monumentos fúnebres de Vittorio Alfieri, Michelângelo e Galileu na gasílica da Santa Cruz, em Florença, Stendhal registrou no dia 22 de janeiro: "Atingi aquele nível de emoção onde se encontram as sensações celestes oferecidas pela arte e pelos sentimentos de paixão. Saindo da Santa Cruz, tive uma palpitação no coração, a vida para mim tornou-se árida, eu caminhava temendo cair". Diagnosticada pela primeira vez em 1982, a síndrome de Stendhal continua acometendo visitantes na capital toscana e de outros destinos turísticos da Itália.
Revista Viver Mente & Cérebro nº 165 Setembro 2006
Sóror Juana
Imagine ser mulher, mestiça e religiosa, além de nascida no México do século 17, em pleno andamento da Contra-Reforma Católica. Some-se a isso tudo o fato de ser uma amante ardorosa de livros, possuir uma cultura vasta e falar vários idiomas, incluindo o Português. Assim era Sóror Juana Inês de la Cruz (1651-1695).
Naturalmente não lhe foi permitido o ingresso na universidade, como ela tanto desejava, pois meninas não eram admitidas. Pois a moça teve o atrevimento de enviar cartas ao padre Antonio Vieira corrigindo-o, bem como a vários bispos e ao próprio papa! Pensar naquele tempo era atividade de risco. Para alguém na condição dela, nem se fala.
O inevitável aconteceu: a Igreja a proibiu de escrever e exigiu que abandonasse os livros. Sem poder reagir, restou-lhe acatar a disposição de Roma. Juana de Asbaje Y Ramirez de Santillana, seu nome laico, morreu aos 44 anos vitimada por uma peste que atingiu o convento onde vivia, depois de prestar um dedicado trabalho como enfermeira
assistindo as companheiras de clausura.
Revista Discutindo Literatura nº 9 2006
Silva Jardim
Silva Jardim, advogado, jornalista e político nascido em 1860, foi adepto das idéias positivistas de Auguste Comte. Além disso, revelou-se desde jovem um ardente defensor da República. Querendo ser "mais realista do que o rei", foi marginalizado pelos republicanos após 1889, por ser considerado um radical. Desgostoso, foi viver na Europa. No dia 1º de Julho de 1891, meses antes de Deodoro renunciar, Silva Jardim morreu de uma forma insólita e misteriosa. Passando pela Itália, em sisita ao Vesúvio, o autor de Idéias de Moço (l878), não se sabe se por acidente ou por vontade própria, foi tragado por uma fenda no vulcão.
Revista Nossa História nº 13 Novembro 2004
O Evangelho Segundo Jesus Cristo
José Saramago, Nobel de Literatura, conta que certa manhã saiu para comprar pão e, passando pelo jornaleiro, leu a manchete: O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Maravilhado, pensou "que belo romance daria isto". Havia esquecido os óculos. Chegou perto e viu-se vítima de uma ilusão de óptica. A manchete dizia outra coisa, ele nem se lembra mais o quê. Bendita ilusão: deu-nos uma obra prima.
Revista Caros Amigos Nº 118 Janeiro 2007
Loira burra
O mito da loira burra ganhou o mundo graças ao cinema - para ser mais exato, graças a Marilyn Monroe, diva de hollywood que interpretou diversas personagens fúteis e sedutoras. Em Os Homens Preferem as Loiras, de 1953, Marilyn - que tinha cabelos castanhos - assume o papel de Lorelei Lee, uma loiríssima que seduz milionários e vive às turras com o idioma. O filme foi baseado no romance homônimo da norte americana Anita Loos, lançado em 1925. Anita contava que teve a idéia numa viagem de trem. Enquanto ela, morena, arrastava as malas sem comover as ala masculina, uma loia ao seu lado era paparicada por todos os marmanjos. Hoje o estereótipo é alimentado, em grande parte, pelos homens. Pesquisa feita na Universidade de Coventry, na Inglaterra, mostrou queapesar de preferirem as loiras, eles acham que são menos inteligentes. No Brasil, o preconceito sobrevive graças a uma mentalidade branqueadora. "Nosso ideal de beleza priveligia as mulheres de pele clara e as loiras". "A lenda da loira burra seria, então, uma espécie de vingança das morenas".
Revista Superinteressante Nº 189 Junho 2003
Baudelaire
Rebelde com alma - Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris, a 9 de Abril de 1821, e faleceu na mesma cidade, a 31 de Agosto de 1867.
Desde muito jovem demonstrou possuir um temperamento inquieto e rebelde, que lhe valeu a expulsão de um dos colégios em que estudou.
Ao atingir a maioridade, em 1842, Baudelaire recebeu a herança paterna e passou a levar uma vida de boêmio desregrada fortemente associada ao álcool e às drogas. Com seu estilo de vida, Baudelaire lapidou rapidamente a herança, o que fez com que a sua mãe o acusasse judicialmente de pródigo e conseguisse a nomeação de um tutor, com o qual manteve até a morte uma relação tensa e conflituosa.
Em 1857, foi lançado seu livro de poesia mais famoso, As Flores do Mal, que produziu enorme escândalo na França. A acusação feita era de ataque violento à moral. Paralelamente à sua produção poética, baudelaire foi também crítico de arte e tradutor e considerado pela crítica literária o fundador da lírica moderna, pois sua obra incorporou, como nenhuma outra poesia produzida até então, os elementos considerados, em princípio, como não-poéticos.
Ele assimilou elementos pouco ortodoxos para entender, por meio de seus escritos, as enormes contradições que estão na base da vida moderna, cujo epicentro, no século 19, era Paris.
O Garimpo Nº 16
Novembro 2006 in Revista Discutindo
Literatura Nº 9 2006
Marquês de Sade
O aristocrata francês Donatien François de
Sade passou confinado quase um terço dos seus 74 anos de vida (1740-1814) em penitenciárias ou manicômios. Num exercício de coerência atávica, os motivos que levaram o marquês incontáveis vezes à prisão sempre foram os mesmos que alimentaram sua produção literária e teatral: sodomia, flagelações, libertinagem, maus-tratos e orgias, tudo isso na idade adulta, e atividades
contra-revolucionárias já mais perto da velhice. Por este último delito foi conduzido a uma casa de detenção em Picpus, de onde podia testemunhar, da única janela de sua cela, a guilhotina descendo solta sobre o pescoço de condenados franceses.
Em suas principais obras, como A Filosofia na Alcova, Justine e Aline e Valcour, além de Os 120 Dias de Sodoma, o marquês sempre fez a polêmica defesa de um mundo sem Deus e, portanto, sem necessidade da moral e da virtude. Proibidos em sua época e nas décadas seguintes, os livros e as peças de Sade, acusados de corromper ora a mente, ora o corpo e, na maioria dos casos, a ambos, contituíram um monumento ao erotismo ou à perversão. Foi um escritor e filósofo duplamente incômodo: os poderosos o recriminavam em função de seus ataques tanto à monarquia francesa quanto aos revolucionários que tomaram o poder em 1789; e as famílias, porque viam nele o atalho mais curto para a desegregação.
O Garimpo Nº 14
Setembro 2006 in Revista Bravo! Nº 106 Junho 2006
Licor de amores
A bebida foi ao mesmo tempo boa e ruim para a literatura brasileira do século XIX. Muitos poetas românticos, como era moda, sucumbiram ao álcool, como foi o caso do genial Fagundes Varela, que chegou a trocar suas poesias por bebida. Havia, inclusive, uma certa hierarquia entre destilados e fermentados. O vinho, que inspirava Gonçalves Dias, apreciador de um bom bordeaux, era considerado bebida refinada. Joaquim Manuel de Macedo escrevia nas madrugadas aos eflúvios de uma boa cerveja. A cachaça, em geral, era discriminada: alguns bebiam, mas não lhe dedicavam versos. A preferência era pelo
conhaque, ao qual Álvares de Azevedo consagrou poesias e pelo qual Machado de Assis, o escritor mais sóbrio de todos, declarou sua paixão, chamando-o "meu licor de amores".
O Garimpo nº 2 setembro
Revista nossa Histórianº21 / julho de 2005
Maneco
Manoel Antonio Álvares de Azevedo - apelidado Maneco - nasceu no dia 12 de Setembro de 1831 e foi o segundo da linhagem. A irmã, dois anos mais velha, herdara o nome da mãe Maria Luísa. Maneco era um estudante brilhante, o primeiro em notas no Colégio. Foi sozinho para São Paulo cursar Direito na Faculdade do Largo São Francisco, onde mais uma vez se destacou. Lá estava ele, com 16 anos, quando logo no primeiro ano foi acometido pela tuberculose, naquele tempo uma doença fatal.
Quando passou para o quinto ano na Faculdade, Álvares de Azevedo foi ao Rio de Janeiro visitar a família. Nessa ocasião, confessou a um primo que tinha maus presságios: todo ano morria um aluno do quinto ano da Faculdade, e ele sentia que era o próximo. Poucos dias depois desse desabafo, ele sofreu um acidente enquanto cavalgava e morreu 45 dias depois.
O Garimpo nº 5 Dezembro 2005// Revista Discutindo
Literatura nº 5 2005
O Livro
Em um monastério medieval, um homem está escrevendo. Seus instrumentos: Um pergaminho de pele de ovelha e uma pluma. O resultado de seu trabalho será um objeto único e precioso, um tesouro digno de ser guardado a sete chaves e contemplado com espanto e admiração por geraçôes de estudiosos. Um livro.
Essa cena se repetiu inúmeras vezes ao longo dos séculos. Nos primórdios, em vez de pergaminhos usava-se a argila ou tábuas de madeira com cera. No lugar da pluma, um estilete. Mas o resultado era o mesmo: Uma obra literária de personalidade única. A realidade mudou apenas em 1498, quando o alemão Johannes Gutemberg inventou o tipo móvel. Mudou, mais um pouco. As obras surgidas na infância da tipografia estavam longe de serem itens populares. Eram vendidas por fortunas a aristocratas bibliófilos e ricos membros da igreja. Foi apenas no século 19 após a revolução industrial que o livro se incorporou ao dia-a-dia.
Revista Super Interessante – 224 – março de 2006
Publicado em “O Garimpo Ano II – Agosto de 2006 – Nº 13”
Pegadinha Britânica
A história das obras primas recusadas é tão vasta quanto a da própria liteatura. De James Joyce a Ernest Remingway, de Gabriel Garcia Márques a Ítalo Calvino, grandes escritores tiveram obras rejeitadas. Talvez o caso mais curioso tenha sido o de Marcel Proust com o seu Em busca do Tempo Perdido. Na época, Proust foi recusado por várias casas editoriais, apesar de se mostrar disposto a pagar pela publicação. Conta-se que alguns pacotes não foram se quer abertos pelos editores.
Em Londres, o jornal The Sunday Times resolveu no começo desse ano fazer um teste para saber como editoras e agentes editores recebem inéditos de autores estreantes. Em vez de nova ficção, porém, foram enviados os capítulos iniciais de dois livros que venceram o Booker Prize, maior premiaão do gênero na Inglaterra, nos anos 70 – Holiday, de Stanley Middleton, e In a Free State, de V. S.Naipaul, este ultimo vencedor de um Nobel(2001). Das 21 respostas, apenas uma foi favorável.
Revista Entre Livros – Nº 10 – fevereiro de 2006
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